Fabulações a respeito do trabalho de Letícia Arais Lopes texto de Nico Rocha para a exposição “Ode a Phobos”

Esse texto é uma forma de percurso de alguém que aborda a produção da artista e faz sua parte entrando no jogo por ela proposto. Resolvi imaginar qual o seu percurso para além do que já foi falado acerca do papel da imagem e o lugar da pintura. Então fui buscar um outro ponto de observação, de onde pudesse imaginar os meandros do processo de criação de Letícia Arais, e hipotizar sobre seu processo, no que ela comenta, e no que pode ser encontrado no trabalho.

É um processo intuitivo, e, portanto, tende a não ser focado, ele se baseia em um procedimento em rede que leva junto para o trabalho bem mais do que é pensado para estar ali presente, isso sempre acontece, mas em trabalhos construídos com base nos processos intuitivos de condução isso é predominante.

De certa forma os trabalhos propõem um jogo semelhante para o observador. Assim como a artista enfeixa neles mais do que consciente e intencionalmente colige no trabalho, nós nos aproximamos dele por muitas vias ali presentes, insuspeitas, e que trazem novos significados. Como percursos deixados ali para serem seguidos, em um trabalho que é fruto de uma multiplicidade de ângulos de observação, de diferentes leituras e entradas.

O trabalho nasce das relações estabelecidas entre os elementos selecionados; foto, objeto, objeto composto (hierarquias internas…), desenho, fragmentos de imagens próprias e por ela apropriadas. São nós de uma estrutura multicamada unidos por “elásticos” operados pela artista. Recursividade, coisas dentro de coisas e ainda dentro de coisas. O trabalho que se constitui em múltiplas camadas, e em abismo.

Essa mesma estrutura que constrói as relações entre os elementos envolvidos, se projeta centrifugamente, propagando-se ao entorno imediato. Esse entorno é utilizado então por Letícia como um poderoso indutor das suas constelações. Em um contraponto centrípeto, de fora para dentro, portas, fenestrações, curvas e ressaltos, ritmos da arquitetura do lugar são envolvidos no jogo de articulação formal gerando semânticas particulares. O trabalho respira e dialoga, entre o entorno e o núcleo, dissolvendo essa dicotomia em uma forma de proposição em aberto.

A visão do seu ateliê indicia sua forma de trabalho. É um meio denso onde ela constrói sua teia de relações como modo de exacerbar as conexões prováveis pela visão de possíveis confluências e pelo exercício de contínua articulação e ordenamento, tudo comandado pela observação arguta desses desdobramentos.

As imagens reunidas em seu ateliê foram pinçadas pela intuição da artista que as acha, coleta, recolhe, e ali se encontram pela sua força expressiva ou simbólica. Elas vão constituindo o seu universo iconográfico em um determinado momento, juntamente com os desenhos e elementos pictóricos produzidos paralelamente. Assim, nesse agrupamento, as unidades colocadas a interagir na parede, disputam a atenção e propõem-se com uma noção de sentido e significação, e de direções interpretativas possíveis.

Podemos imaginar que existam pelo menos três fases nesse processo; a da seleção, algo naquelas imagens lhe chama a atenção, indica interesses, deflagra suspeitas e presságios acerca do que possam vir a constituir uma vez colocadas em relação; da reunião, pois o conjunto que permanece na parede corresponde a uma fração do seu acervo, do seu universo das imagens, um conjunto que é filtrado para ser colocado em operação. A terceira parte, da articulação, onde elas estão continuamente se propondo em grupos associados que se dissolvem e recompõem nas múltiplas proposições ali contidas.

É uma forma de constelar, uma maneira de pensar a reunião dos componentes, onde a forma de agrupar tem um peso equivalente ao porquê daquelas peças estarem ali reunidas. Uma determina e é determinada pela outra, como Leticia comenta “… revela-se na aproximação e reorganização de várias imagens, como também está latente: está apenas à espera da próxima imagem, coisa ou desenho que lhe completará o significado. “

Seu processo de trabalho busca respostas para algumas questões que seriam primordiais para esse jogo; que peças componentes se adaptam e compõem uma nova organização? Qual estrutura formal é semanticamente mais intensa? Quais são as convergências que derivam das imagens presentes e da estrutura de articulação dessas imagens e tokens?

Talvez sejam indagações mais próximas a um jogo do tipo onde está mais quente ou está mais frio, em que todos os sentidos e intuições da Letícia são utilizados como alertas para os mínimos indícios que levem à construção do trabalho. Pequenas ações podem fazer essa construção desmoronar, mas quando colimados adquirem uma consistência interpretativa muito forte e se propõem como condição de existência.

É a força de uma ligação que é mutável e frágil, que uma vez coesa, tem uma imensa força expressiva. Uma busca da condição de enfeixamento onde coisas manipuladas, mantidas em equilíbrio instável, geram leituras alternativas em um processo recursivo e em abismo. Esse ponto de instabilidade, continuamente mutante na estratégia de enfeixamento, dá intensidade e profundidade ao trabalho.

Esse é o jogo de caça e escuta, uma busca. Detectar uma condição crescente de insondável densidade comunicacional e expressiva, que indica o quanto esse jogo do achar uma configuração mais intensa está na base da sua investigação. Onde ela mesma questiona as diferentes mudanças de direção que o andamento das suas montagens imprime a um trabalho que dinamicamente se reconstrói e redireciona a interpretação.

Movendo-se no visível, baseada em sua leitura intuitiva, subterrânea, nos momentos da constituição das constelações, na busca de insondáveis sentidos, a artista pressagia.

NICO ROCHA (Luiz Antonio Rocha) é artista, arquiteto e Professor do Instituto de Artes da UFRGS.