Visita ao ateliê texto de Guilherme Dable para a exposição “Exagerar já é um começo de invenção”

“Julgo que sei olhar, se é que sei alguma coisa, e que todo olhar resume falsidade, porque é o que nos lança pra fora de nós próprios, sem a mínima garantia. (…) De qualquer modo, se se prevê de antemão essa provável falsidade, o olhar torna-se possível; basta talvez escolher entre o olhar e o olhado, despir as coisas de tanta roupa estranha. E naturalmente, tudo isto é muito mais difícil.” Blow Up, Cortázar.

Visitar o ateliê de um artista é sempre esclarecedor: é a melhor oportunidade para conhecer seus processos, inquietações e obsessões; é o lugar onde tudo deveria, de alguma forma, estar às claras, mesmo que, em alguns casos, no meio de alguma espécie de caos. É comum que as coisas venham a emergir de alguma forma de acúmulo, sejam coleções de imagens, livros, anotações ou estudos.

O ateliê da Letícia é, como pode-se imaginar quando olhamos seu trabalho, carregado das mais diversas fontes: livros antigos, objetos diversos, muitas vezes encontrados quebrados ou manipulados pela artista, peles de animais, e muitos, muitos fragmentos de imagens. Na parede utilizada para a pintura, pequenos agrupamentos de imagens, medindo poucos centímetros, se encontram justapostas (“combinadas” não seria a palavra ideal), que prescrutei longamente enquanto ela organizava os conjuntos de pequenas pinturas na mesa ao lado.

O protagonista de Blow-up, movido pela curiosidade, amplia sucessivas vezes um negativo para descobrir um fato terrível, um possível crime que ocorria no plano de fundo da cena que fotografara. De certa forma, Letícia explode a escala de seus diminutos documentos de trabalho também movida pelo mistério encerrado em cada fragmento, mas ela apropria-se deles para criar novos mistérios ao transfigurá-los através da linguagem da pintura. Recortes de convites de exposição, ilustrações de animais selvagens, fragmentos encontrados em periódicos garimpados em sebos, entre tantas outras fontes nessa espécie de Atlas imersivo que é seu pequeno ateliê, são operadores de um jogo visual que Letícia se engaja de modo assertivo e entusiasmado construindo suas pinturas. Fica claro que ela não faz escolhas fáceis em suas fontes imagéticas: um fragmento de partitura, nos apresentando apenas duas notas; a estranha ilustração de coelho, em tons muito escuros, que remete, assim como a partitura, ao repertório de imagens de Jasper Johns; uma cabeça de zebra, claramente pintada a partir de uma ilustração; e, como único ponto de cor, duas pedras de luz dourada sobre um fundo turquesa. É interessante pensar que a referência musical se dá também na maneira em que Letícia articula esses pequenos módulos, algumas vezes desenhando na parede atrás deles, como uma espécie de notação para o olhar. Há, em todos os módulos, a busca por um ritmo visual, uma pausa que pode ser um pequeno monocromo cinza junto de uma flor que parece derreter, ou ainda o que parece um detalhe de figura humana pintada em um amarelo-limão, contraposta a um padrão decorativo em alto contraste. Se me cabe mais uma referência à cultura pop, eu imagino que Letícia, em algum momento, traduza seu entusiasmo em uma expressão facial como a de Iggy Pop na capa do fundamental Lust For Life: um riso largo, quase maníaco, com um olhar que devora o mundo.

Flores, ladrilhos, gatos, lobos, pássaros, partituras, coelhos: são todas coisas que a mente já conhece. Letícia nos reapresenta essas imagens vestidas de uma estranheza que nos pede um minuto a mais, para que possamos nos dar conta das operações que ela nos propõe ao nos reencontrarmos com nossa própria memória. Em um mundo onde não há mais espera, a capacidade de surpreender é mais do que um começo de invenção.

GUILHERME DABLE é artista e Mestre em Poéticas Visuais pelo IA/UFRGS